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FEMINICÍDIO

“Só ouvimos três tiros”, conta dona da casa onde mãe e filha foram mortas em Passos Maia

21/04/2026 às 18:29

Tatiane Rebelatto Zanaro e Erika Zanaro Borges foram mortas a tiros (Foto: Arquivo pessoal)

Vítimas moravam no porão de imóvel que pertence a casal, que mora na parte de cima e estava em casa no momento do crime.

O crime que chocou Passos Maia na manhã do último domingo, dia 19, vai ficar na história do pequeno município do Oeste de Santa Catarina. Tatiane Rebelatto Zanaro, de 34 anos, e a filha Erika Zanaro Borges, de 19, foram assassinadas por Wilson Adejar Cavalheiro das Neves, de 55 anos, que cometeu suicídio logo em seguida.

As vítimas moravam em um porão na avenida Ângelo Tirelli, no Centro de Passos Maia. O imóvel pertence a um casal que mora na parte de cima. Os dois estavam em casa no momento do crime e, assim como vários vizinhos, foram assustados pelos tiros.

A dona da casa revelou ao Oeste Mais ter ouvido apenas três tiros. “Estávamos em casa preparando o almoço. Não vimos ninguém entrar ou algo diferente. Só ouvimos os três tiros, um em seguida do outro”, lembra a mulher, que não vai ser identificada pela reportagem.

 “Saímos na área para ver onde era e o que era. Chamamos ajuda para chamar a polícia, saúde, bombeiros, pois achamos que era lá mesmo [no porão]. Aí ficou um silêncio. Aí vizinhos foram ver e relataram que estavam mortos”, recorda a moradora.

A Polícia Militar foi acionada por um vizinho às 10h17 da manhã. A dona da residência também disse que o local foi alugado para Erika há poucos meses. Pouco depois, a mãe teria ido morar com a filha, provavelmente depois da separação. “Nós nos dávamos super bem. Acolhemos a Erika e, logo após um tempo, a Tati começou a ficar aqui também”.

“Falávamos com elas todo dia. Chegavam a tomar chimarrão. A gente usava a lavanderia junto, se ajudava”, conta a proprietária.

Os corpos de Tatiane e Erika foram velados e sepultados na tarde de segunda-feira, dia 20, em Faxinal dos Guedes, município vizinho de Passos Maia. Já o velório de Wilson ocorreu em Coronel Domingos Soares, no Paraná, com o sepultamento na manhã desta terça-feira, dia 21.

Motivação

Wilson Adejar Cavalheiro das Neves se matou após o crime (Foto: Arquivo pessoal)

Testemunhas relataram que Wilson não aceitava o fim do relacionamento com a ex-companheira, mas a hipótese é investigada pela Polícia Civil. “Embora preliminarmente haja indícios de possível ocorrência de duplo feminicídio seguido de suicídio, a Polícia Civil não descarta outras linhas investigativas. Assim, a motivação e as circunstâncias do crime permanecem em análise”, disse em nota.

Tatiane era professora de Física e Matemática e atuava nas escolas municipais Duque de Caxias e Nossa Senhora Aparecida, além da Escola de Educação Básica Professor Corália Gevaerd Olinnger. Já Erika havia se formado no ensino médio em 2025, fez um curso técnico em Administração e havia iniciado a faculdade de Ciências Contábeis neste ano. Ela trabalhava como vendedora em uma loja de calçados no município. A Prefeitura de Passos Maia decretou luto oficial de três dias em razão das mortes.

Crime ocorreu nesta residência na avenida Ângelo Tirelli (Foto: Polícia Militar)

O que acontece em casos de feminicídio e morte do autor?

Crime registrado em município de Passos Maia reacende debate sobre responsabilização quando agressor tira a própria vida.

O caso registrado na manhã de domingo, dia 19, em Passos Maia, no Oeste catarinense, em que um homem matou a ex-esposa e a filha dela antes de tirar a própria vida, levanta uma dúvida comum: o que acontece juridicamente quando o autor do crime morre?

Mesmo nesses casos, a investigação policial ocorre normalmente. A Polícia Civil instaura inquérito para apurar a dinâmica dos fatos, reunir provas periciais, ouvir testemunhas e confirmar a autoria. O trabalho inclui análise do local, exames da Polícia Científica e levantamento de possíveis antecedentes de violência.

Quando há indícios de que o crime foi motivado por relação íntima e contexto de violência doméstica — como no caso de ex-companheiros que não aceitam o fim do relacionamento — a morte da mulher é enquadrada como feminicídio. Já outras vítimas, como filhos ou familiares, podem ser enquadrados como homicídio qualificado.

“Embora preliminarmente haja indícios de possível ocorrência de duplo feminicídio seguido de suicídio, a Polícia Civil não descarta outras linhas investigativas”, informa a Polícia Civil em uma nota à imprensa divulgada nesta segunda-feira. “Assim, a motivação e as circunstâncias do crime permanecem em análise, e os desdobramentos serão oportunamente comunicados à imprensa quando de sua elucidação”, completa.

Extinção da punibilidade

A responsabilização penal não acontece em casos assim. Como o autor morreu, não há possibilidade de julgamento ou aplicação de pena. Nesses casos, a legislação prevê a extinção da punibilidade, ou seja, o Estado perde o direito de punir porque não existe mais um réu.

Ainda assim, o caso não deixa de ter desfecho jurídico. Após a conclusão do inquérito, o Ministério Público analisa as provas e solicita o arquivamento à Justiça em razão da morte do autor. Esse procedimento formaliza o encerramento da investigação na esfera criminal, com reconhecimento da autoria.

Mario Serafin / Fonte: Oeste Mais