10/02/2026 às 14:02
Há uma certa sedução nas palavras estrangeiras. Elas nos chegam como novidades brilhantes, vestidas com ares cosmopolitas, carregando o sotaque das grandes metrópoles, como se, ao pronunciá-las, pudéssemos também vestir a pele de um mundo mais avançado, mais elegante, mais... moderno. É nesse feitiço que muitos se deixam cair, crendo que o uso de feedback, coffee break, check-in, know-how e outros anglicismos é sinal de erudição, sofisticação, domínio do tempo presente.
Mas o que se esconde por trás desse vício de linguagem não é avanço. É apagamento. Lúgubre momento em que se apaga a própria língua, sua própria história e sua própria identidade. É como se disséssemos, sem dizer, que o nosso português é insuficiente, limitado, desprovido da beleza e da precisão necessárias para habitar os espaços da modernidade. Um engano perigoso.
Ora, coisa triste não perceber o bom e velho português, com sua tessitura poética, sua capacidade de nomear sentimentos com exatidão e de dar forma ao pensamento com sutileza, não é uma língua menor. Ao contrário, é vasto como um campo de lavouras antigas, é rico como as bibliotecas que o abrigam há séculos. Em nossa língua cabem tanto a simplicidade do afeto quanto a complexidade das ideias; ela se estende com a mesma graça nos bilhetes deixados sobre a mesa quanto nos tratados filosóficos.
E aí pululam Brasil a fora os que preferem, inocentemente substituir palavras vivas e pulsantes como “retorno”, “intervalo”, “entrada”, “conhecimento técnico”, por seus correspondentes em inglês — muitas vezes mal pronunciados, mal compreendidos e deslocados de contexto — é como trocar o cheiro de café passado na hora por cápsulas artificiais de conveniência. Perde-se o sabor, o calor, a memória.
É claro que a língua é viva e permeável. Não se trata de pregar o purismo ou a clausura linguística. Há estrangeirismos que se incorporam naturalmente, quando não há correspondentes diretos ou quando o uso consagrado lhes dá nova vida. O problema, no entanto, reside no uso gratuito, acrítico, quase compulsivo desses termos, movido mais pelo desejo de parecer sofisticado do que pela necessidade real de precisão.
Pior ainda: o uso infundado do estrangeirismo pode levar a situações vexatórias, em que a tentativa de parecer erudito expõe, na verdade, uma fragilidade. Há quem diga brainstorm sem jamais ter feito um; há quem fale em coaching, networking e benchmarking sem dominar nem mesmo o básico da conversa franca, do aprendizado paciente, do olhar atento ao outro. São palavras como disfarces, como vitrines onde se expõem ideias embrulhadas para parecer mais do que são.
Valorizar o português é um gesto de consciência e respeito. É reconhecer que nossa língua é capaz de sustentar, com beleza e vigor, todas as dimensões da experiência humana. É um gesto de humildade, também — porque saber nomear as coisas no próprio idioma é uma forma de sabedoria silenciosa, que não precisa de adornos para se fazer presente.
É preciso que redescubramos o gosto pelas palavras da nossa terra. Que as usemos com orgulho, que as cultivemos como quem cultiva um jardim nativo, sabendo que ali há beleza bastante, sem necessidade de importar flores exóticas para impressionar os olhos alheios.
A verdadeira modernidade não está em imitar o outro, mas em saber quem se é. E se há uma modernidade a ser desejada, é aquela que não se envergonha das próprias raízes, que não disfarça sua voz com sotaques falsos, que não recorre a máscaras para parecer atual.
Que falemos, pois, com a dignidade que nossa língua merece. E que, ao nos dirigirmos ao mundo, levemos conosco não a ilusão de falar bonito — mas a certeza de falar com verdade.
Jaime Telles / Escritor e palestrante
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