05/08/2025 às 14:46
Santa Catarina, por sua vocação agroindustrial e exportadora, não pode mais adiar uma decisão estratégica que impactará decisivamente seu futuro: o investimento urgente e consistente em infraestrutura ferroviária. Com uma malha rodoviária sobrecarregada, deficiente e em muitos pontos obsoleta, o Estado carece de alternativas logísticas compatíveis com sua pujança produtiva e com a complexidade das cadeias de suprimentos que sustentam sua economia. A recente criação do Sistema Ferroviário do Estado de Santa Catarina (SFE), com o respaldo jurídico e institucional da Lei nº 0474/2025, representa um divisor de águas nesse cenário. De parabéns, portanto, o governador Jorginho Mello pela iniciativa e a Assembleia Legislativa pela aprovação da lei.
Ao conferir ao Estado a prerrogativa de conceder, planejar e desenvolver trechos ferroviários, essa nova legislação rompe com a dependência exclusiva da União e inaugura uma era de protagonismo regional. Santa Catarina deixa de ser apenas espectadora do traçado nacional das ferrovias para assumir o timão do próprio destino logístico. Trata-se de uma conquista histórica e, ao mesmo tempo, de uma convocação à ação imediata.
O Estado detém apenas 4,4% da malha ferroviária nacional e responde por irrisórios 1,45% da carga transportada por esse modal. Essa desproporção é inaceitável frente ao peso da economia barriga-verde. Nesse contexto é urgente a necessidade de integrar o Oeste ao Litoral, criando um corredor ferroviário eficiente e contínuo entre as regiões produtoras do interior e os portos marítimos catarinenses. A expansão da Malha Sul, conectando Chapecó a Correia Pinto, constitui um passo necessário, mas insuficiente. O horizonte precisa ser mais ambicioso. A interligação entre os portos de Itajaí, Navegantes, São Francisco do Sul e Itapoá por ferrovia reforçaria a sinergia entre modais e expandiria a capacidade de escoamento das exportações, promovendo ganhos econômicos, ambientais e operacionais de grande magnitude.
O Estado já conta com exemplos consolidados de uso ferroviário, como a Malha Sul e a Ferrovia Tereza Cristina, ambas sob tutela federal. Com o SFE, abre-se a possibilidade de internalizar a gestão, modernizar os trechos existentes e, sobretudo, viabilizar novos empreendimentos sob regime de concessão ou autorização privada. A nova legislação permite outorgas de até 99 anos, proporcionando segurança jurídica e atratividade para investidores de longo prazo. Trata-se de um modelo inovador, sintonizado com o Novo Marco Legal das Ferrovias, que visa fomentar o surgimento de “shortlines”, linhas curtas voltadas a demandas locais, integradas à malha nacional.
Além dos projetos em curso — como a ligação entre os portos de Navegantes e Araquari, já com 70% de execução — o governo estadual vislumbra novas rotas estratégicas: a conexão entre a Ferrovia Tereza Cristina e o município de Aurora e a ferrovia litorânea que uniria os principais portos. São propostas que, se materializadas, impulsionarão a competitividade de Santa Catarina, mitigarão gargalos históricos e oferecerão à indústria, ao agronegócio e à sociedade instrumentos logísticos compatíveis com o século XXI.
Paralelamente, outra questão desafia a agroindústria catarinense, especialmente a cadeia de aves e suínos, altamente dependente da importação de grãos — milho e soja — oriundos do Centro-Oeste brasileiro. A inexistência de uma ferrovia ligando o Oeste de Santa Catarina ao Centro-Oeste agrava custos logísticos, onera a produção, limita a competitividade internacional e compromete a sustentabilidade do setor. É inconcebível que esse elo logístico continue ausente.
O esgotamento das rodovias, a saturação do modal rodoviário e os custos crescentes do transporte por caminhões exigem mudança. Em qualquer país desenvolvido, foi pelas ferrovias que se encontrou a solução para a eficiência logística, a desconcentração das cargas nas estradas e a ampliação da integração territorial. Não há alternativa. Ou Santa Catarina investe com seriedade na construção de uma malha ferroviária moderna, integrada e funcional, ou estará condenada à estagnação logística e à perda progressiva de competitividade.
José Zeferino Pedrozo / Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC).
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