17/11/2025 às 19:09
Em toda chuva mais forte, há um ponto da cidade onde o trânsito para, as sirenes tocam e a água sobe rápido demais. Cada joaçabense conhece um lugar assim e já pensou: até quando?
Durante meu mandato como vereador, uma das pautas que mais discutimos foi a macrodrenagem. Falávamos sobre pensar a cidade de forma integrada, e não apenas remendar os problemas depois da chuva. A drenagem é o tipo de obra que pouca gente vê, mas todo mundo sente quando falta.
Tenho acompanhado, com respeito, as obras que vêm sendo feitas pela Prefeitura. São avanços importantes, mas é preciso olhar além do imediato. Consertar bocas de lobo resolve o hoje; planejar galerias, reservatórios e canais resolve o amanhã. O Plano Municipal de Saneamento Básico é claro: Joaçaba ainda não possui estruturas de retenção ou amortecimento de águas pluviais, e isso nos deixa vulneráveis a cada temporal.
Quem lembra das tragédias em Petrópolis (RJ) sabe o quanto a natureza cobra o improviso. Lá, o volume de chuva foi extremo, mas o desastre veio da falta de planejamento e de respeito ao relevo. Guardadas as proporções, nosso terreno também é “dobrado”: morros, vales, encostas. Quando chove demais, a água procura seu caminho e, se não o dermos, ela o faz sozinha.
Em Joaçaba, esse cuidado precisa alcançar também nossos rios. O Rio do Peixe e o Rio do Tigre, tão importantes para o equilíbrio natural, estão assoreados e cheios de entulhos, inclusive de pontes que cederam em enchentes antigas. Em alguns pontos, há construções muito próximas das margens e encostas, o que aumenta o risco.
Sem manutenção dos cursos d’água, nenhuma drenagem urbana funciona. É como limpar a calha e esquecer o cano.
Nos últimos meses, Santa Catarina e o Paraná enfrentaram chuvas severas, enxurradas e deslizamentos. E o Rio Grande do Sul viveu recentemente uma das maiores tragédias climáticas da sua história, com cidades inteiras submersas. Essas cenas aconteceram a poucas horas de nós, e provam que ninguém está imune. Casos tão recentes ligam o sinal de alerta e exige de nós planejamento e prevenção, não improviso e reação.
Hoje, à frente do Instituto do Meio Ambiente (IMA), tenho a oportunidade de olhar a cidade por outro ângulo. O programa Penso, Logo, Destino (PLD) nasceu para mudar a forma como lidamos com o lixo, mas sua filosofia serve para tudo: pensar antes de agir, destinar antes de desperdiçar. E talvez esse raciocínio precise entrar também nas nossas decisões sobre o espaço urbano.
Não escrevo para apontar culpados, mas para lembrar que gestão pública é revezamento, cada administração corre um trecho e passa o bastão. O importante é manter o rumo.
Como joaçabense, acredito que temos tudo para ser exemplo em planejamento ambiental: técnicos competentes, instituições sérias e uma comunidade que se importa.
Precisamos apenas olhar para o subsolo e para os rios com a mesma atenção que damos às fachadas. O que sustenta uma cidade não é o que aparece — é o que flui por baixo dela.
Que as próximas chuvas tragam menos alagamentos e mais consciência.
Que cada nova obra venha com um plano maior, duradouro e integrado.
E que o diálogo entre governo, técnicos e comunidade continue — porque, no fim das contas, não existe oposição quando o objetivo é o bem de Joaçaba.
Rodrigo Pedrini / Colunista
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