25/04/2025 às 13:04
Macacos jovens ajuntam-se, formam bandos, saem às algazarras e agridem outros que encontram em situação desvantajosa pelo caminho. Esses macacos despertam atenção sobre si. Obter atenção, no caso, é vantagem evolutiva: propicia mais acasalamentos, logo, reprodução. Macacos ostentosos tendem a reproduzir macacos tais e quais.
Humanos jovens fazem o mesmo, inclusive servindo-se de recursos tecnológicos. Além de gritos, brigas e agressões em grupo, música em alto volume e veículos barulhentos. Rapazes com esses hábitos ainda são mais sorteados pelas garotas do que aqueles que primam pela elegância na aproximação. Sim, há exceções. Falo do comportamento padrão.
Macacos jovens atacam e surram outros macacos jovens que estejam mais fragilizados. Fazem isso gratuitamente, sem nada em disputa. As vantagens evolutivas de manter acuados espécimes de menor vigor físico explicam o comportamento. Evolutivamente, macacos “bem-comportados” reproduzem-se menos.
Primatas privilegiados pela evolução, os machos (principalmente, mas não só) humanos, sobretudo na adolescência, agem do mesmo modo. Não seria exatamente esse o comportamento que adolescentes reproduzem nos territórios em que se aglomeram e se exibem? Creio que a esse ancestral procedimento deu-se, agora, o nome de bullying.
Essas atitudes prevalecidas não são as típicas de dominâncias em competição. Ocorre prevalecimento de valentões sobre vítima em situações desvantajosas. É um assédio covarde. Comumente, se confrontados, os atacantes não se dispõem ao enfrentamento.
Seja como seja, nessa prática (bullyng) há alguém, muitas vezes uma vítima preferencial, sendo física e moralmente insultado de forma cruel, gratuita e reiterada. Ora bem, não somos macacos. Alguma providência deve ser tomada.
Saímos da selva, porém, preservamos conteúdos primitivos. Na adolescência, a referência é o bando. O indivíduo quer se fazer valer perante a turma, de preferência na turma. Então, se há intervenção do adulto, embora ela seja protetora, dela decorre mais humilhação ao humilhado, pois se lhe comprova a própria incapacidade, e dá-se, ao ver do acudido, razão aos agressores.
A proteção interventora impossibilita a afirmação da identidade do perseguido por ele mesmo: foi salvo, não se salvou. Claro, esclarecimentos podem ajudar, todavia não suprem a condição genética, o orgulho próprio e a relevância social conquistada, determinantes da afirmação individual frente ao grupo.
Pode-se retrucar: membros de famílias mais estruturadas provocam menos situações desse tipo. De fato, famílias estruturadas civilizam melhor (reprimem comportamentos, Freud), fornecem mais aportes culturais, enquanto famílias à margem dessas possibilidades deixam brotar com mais facilidade condições humanas primitivas.
A educação familiar, todavia, muitas vezes só vige sob fiscalização direta, o que raramente é possível. O que importa dizer, de toda forma, é que escolas acumulam adolescentes, como a internet também o faz. Em ambientes em que se aglomerem jovens, esses problemas brotarão; eles compõem a condição humana.
Embora juvenil, a violência que permeia episódios de bullying é brutal. A família, a escola e o Estado são meios legítimos e relevantes para interferir, proteger, punir. Entretanto, não recompõem a subjetividade, não recuperam a autoestima da vítima. Tenho comigo, há muito tempo, outro eficiente jeito de arrostar situações dessa natureza: ser forte.
Fortes têm a compostura oriunda da própria força. A sujeição sistemática à opressão despoja a dignidade. É justo defender-se altivamente. As artes marciais são um “lugar” de calibragem pessoal. Seja gentil com a existência da sua criança: praticantes de artes marciais assenhoreiam-se mais e melhor das próprias circunstâncias.
Léo Rosa de Andrade - Doutor em Direito pela UFSC. Psicanalista e Jornalista.
Léo Rosa de Andrade /
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