07/07/2026 às 15:58
Por Jaime Telles
No coração da inspirada cidade, linhas resolutas apontam para os cimos.
Harmonia ímpar traduz memória e reverência ao transcendente.
Abrigo dulcificante para almas inquietas, onde o pensamento alça voos balsâmicos.
É que grandes obras começam sempre dentro da alma.
Sem distrair, convida à contemplação.
Ao atravessar suas portas, já se vê o quanto a arquitetura também evangeliza.
Argamassa e tijolos amalgamados sob influências do neogótico reinterpretado, com características modernas e elementos das tradições românica e bizantina.
Ornamentos cuidadosamente pensados e a própria concepção da obra parecem confirmar antigas verdades que divagam entre imagens, cores, sons e preleções.
Nobre templo de traços limpos, proporções equilibradas e marcante verticalidade.
Não ostenta, porque significa.
Muito mais que pedra, madeira e cor: acolhimento e ternura.
Garbosa torre parece recordar a permanente vocação humana de olhar para o alto. Arcos, vitrais e espaços dinamizados criam ambiente onde a luz encontra lugar e a construção faz-se linguagem antes de ser edificação.
Sim. É referência religiosa, mas também patrimônio histórico, artístico e cultural.
Igreja-mãe da circunscrição eclesiástica, banhada pela modéstia do Rio do Tigre, que lhe beija os pés e, paradoxalmente, na direção oposta, teima e conclui por derramar-se no colo do majestoso Rio do Peixe, poucos metros abaixo.
Movidos pela esperança, para lá se dirigem tantos caminhantes, envoltos em ânsias tantas.
Bendito destino de peregrinos que carregam gratidão, promessas, lágrimas, e reencontros com a própria fé.
Convívio fraterno florece com outras denominações, igualmente empenhadas em elevar a pessoa e orientá-la ante caminhos da convivência social.
Assim como os sábios raramente elevam a voz, o austero templo atravessa o tempo sem recorrer ao espetáculo.
Qual belo discurso, dispensa verbosidade, porque comunica pela coerência de cada linha com sua função, de cada espaço com sua intenção e de cada ângulo com seu propósito.
Cidades costumam ser lembradas por seus monumentos, seus prédios históricos ou suas realizações econômicas. O privilégio de Joaçaba é bem outro. A mão humana erigiu seu principal símbolo urbano, que aponta para o céu. Reverentes olhares convergem para o maior crucifixo em madeira da América Latina. Belo cedro de oito metros sustenta a figura humana do excelso Mestre, esculpida em outros quatro metros pelo cinzel do célebre escultor brasileiro Gotfredo Thaler, ali imortalizado.
É contemplação que transforma por dentro, com a simplicidade Daquele que foi Palavra e exemplo.
Se há sensação de paz é porque o projeto se cumpre.
Ó Frei Edgar, de saudosa memória e encorajadora lembrança, que soubestes honrar as minúcias do arquiteto italiano Ticiano Bettano. Eis vossa obra mais emblemática. Monumento de elevados propósitos, que não retrata vosso semblante, mas torna indelével vosso legado.
Jaime Telles / Palestrante e escritor
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